sexta-feira, 10 de junho de 2016

Resenha: A Revolução dos Bichos

    O afiado humor crítico e irônico de George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) no livro ‘A Revolução dos Bichos’ usa a metáfora perfeita dos animais como transcrição da realidade de regimes totalitários e autoritários ainda que sirva igualmente para ditaduras tanto de direita quanto de esquerda, talvez querendo dizer sem reservas que tais “sistemas” apenas animalizam o homem ao deturpar os valores inerentes a humanidade e a sua subsequente sociedade.

    Os personagens sempre mostrados de modo caricatural pelo autor representam classes econômicas, estereótipos humanos assim como cargos igualmente equivalentes, mas não somente, mostram também tipos de sociedade, éticas onde mesmo o autor possivelmente se encontraria.

    De um lado temos as elites representadas pelos porcos, geralmente gananciosos, hipócritas, tendenciosos e cínicos a medida que são inteligentes. Através deles podemos ver a representação do almejado por seu regime deturpado e opressor ainda que vendido aos bichos como a salvação deles ante a maldade dos homens.

    Garganta, o porco que é porta voz dos suínos parece remeter a sociedade da informação que informa não necessariamente a verdade, mas apenas os interesses dos porcos governantes através de sofismas e mesmo mentiras descaradas como se fosse “o certo” feito por eles.

    Porém, o Burro que seria a personificação irônica do alterego do autor seria uma espécie de resistência ao proferir o conhecimento da verdade sobre tudo que ocorre assim como do conhecimento em si. Sendo assim uma representação da Sociedade do Conhecimento onde não há distorções, enganos e mentiras, nada desejável pelos porcos assim como as elites e ditadores de nosso mundo, a exemplo da Coréia do Norte, o regime mais fechado do planeta o qual informações falsas são divulgadas a todo instante para o povo e, quem ousa enfrentar – e revelar a verdade – corre sério risco de ser morto simplesmente desaparecendo.

    Tais sociedades acompanham suas equivalentes éticas de modo a servir apenas o almejado. No caso dos porcos que criam “leis” para depois modifica-las exclusivamente para justificar seus atos e seu status quo seria nestes casos um exemplo de ética utilitarista de John Stuart Mill ao passo que a sociedade implicitamente defendida pelo Burro representa a ética dever, de Immanuel Kant.

    Ainda que tais éticas cada qual apresentem limitações e defeitos observável perceber que a ética de Kant servem intenções menos egoístas de um grupo ao responder direitos e deveres supostamente de todos com isenção, não sendo o caso das leis dos porcos que, por exemplo, falam em dado momento que “todos os animais são iguais”, mas depois acrescentam que “uns são mais iguais que outros”.

    Isso demonstra a posição de superioridade e privilégios que tais porcos, agora elitizados, colocam a si mesmos ainda que em dado momento contraditoriamente defendam uma meritocracia quando há maiores facilidades para eles ao contrário do cavalo Sansão que literalmente sucumbe de exaustão de tanto trabalhar sem proporcional retribuição, demonstrando um esforço inútil através dos porcos que utilizando-se da sociedade da informação vende notícias que não correspondem a verdade.

    A afiada crítica social – presente não somente nesse livro como em ‘1984’ – parece fazer valer o status de clássico literário ao unir ideias originais e as referidas críticas ao poder corruptor que parecem claras quando o porco Major, antes dos porcos deterem o poder, defendia uma ideologia que em tese era majestosamente adequada a todos para tira-los da submissão sofrida pelos homens, mas que na prática se transforma apenas num perpetuador de iguais aflições quando os porcos conquistam o poder, algo que adequa-se ao Marxismo que em tese seu autor defendeu como exemplo de igualdade de classe para todos mas, na prática, se deturpou a exemplo de Stalin e cia.

    Visível notar, porém, que a crítica apesar de ser amplamente utilizável era originalmente voltada as ditaduras de esquerda ainda que Orwell fosse socialista pois acreditava que os perpetuadores do marxismo não a correspondiam na prática, sendo assim uma degeneração do mesmo.

    O grau de contundência de tal crítica até hoje atual demonstra como o poder corrompe e vicia seus perpetradores de modo a se distorcer do que seria em teoria impressiona por sua precisão ao mostrar padrões em incomum a quase todos que detém o poder. Hoje vemos muitos exemplos daqueles que, sendo mais poderosos, se atribuem privilégios e facilidades que não admite que aqueles considerados “inferiores” igualmente a detenham, criando não somente dicotomias como abismos sociais que fazer crescer uma série de problemas sociais que nunca parecem ter fim.

    A exemplo dos poderosos brasileiros a corrupção antes oculta que vem sendo lentamente mostrada não resiste a luz da exposição de suas provas, ainda que em grande parte permaneça impune pelas posições sociais e econômicas que esses detém enquanto muitos vivem um regime praticamente fechado sem nada terem feito de errado a não ser sofrer a perseguição por tentarem ter justiça social ante aqueles que ditam: “faça o que falo, não faça o que eu faço”.

    Particularmente por causa de livros como estes adquiri uma posição com tendências mais ao anarcopacifismo por notar que, a exemplo do Brasil, a maioria quando alcança o poder se corrompe passando até defender o elitismo para manter seu status quo ante as classes inferiores que tanto sofrem no mundo. Até quando toleraremos tantos porcos quando possuímos o poder de Sansão? A ironia de Orwell ao escolher os porcos para representa-los torna-se evidente e quase ofensiva.

    O Burro defensor do conhecimento assim como Paulo Freire parecia perceber a situação imponderável dos poderosos através da máxima de Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor." Isso sucedeu os porcos que alcançaram o topo apenas para perpetrar os mesmos erros de seus antecessores, o homem, para no final eles passarem a andar em duas patas similarmente aos homens demonstrando que apenas estavam se tornando exatamente aquilo que achavam atacar, o mal, pois agora aqueles que também andava sobre duas pernas eram dignos de ser aliados dos animais.

- Orwell, George – A revolução dos Bichos – Ed.Companhia de Letras - 2007

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