sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Resenha: Pedagogia do Oprimido

"Não há história sem homens, como não há uma história para homens, mas uma história de homens que, feita por eles, também os faz, como disse Marx."
P.175

Paulo Freire tinha a óbvia intenção de expandir a consciência com resiliência dos segregados que viviam resignados numa exclusão que destituía estes de sua importância e valores. A obra 'Pedagogia do Oprimido' trás a máxima expressão dessa justa luta por tornar o homem a sua essência, livre e verdadeira. Assim a ideia da Consciência Máxima possível de Lucien Goldmann seria uma consciência capaz de transcender sua realidade social de forma crítica através de sua problematização sistêmica o qual Freire refere-se como 'descodificação'. Naturalmente que isso antecipa em anos a filosofia de uma matrix o qual realidades estão sobrepostas ainda que num nível socioeconômico.

"Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão."
P.108

A consciência primeira seria auto limitante a sua própria realidade, ou seja, num nível essencialmente pragmático, voltado a mera necessidade. Deste modo a natureza dessa realidade parece não atender muitos aspectos da pirâmide de Smarllow assim como ser mais semelhante a "consciência" de um animal, que de um ser humano.

Paulo Freire observa que mesmo o analfabeto não é uma 'tábula rasa' como Locke postulou, mas um sujeito com conhecimentos necessários para a decodificação de sua realidade, quer seja por sua oralidade ou escrita. As informações necessárias a despertar seu senso crítico estão presentes independente do nível de instrução sendo necessário apenas problematiza-las para efetuar esta decodificação.

Freire, sobretudo observa como mecanismos diametralmente opostos aos proposto por ele são utilizados como forma de manter o poder opressor das classes dominantes, das divisões, quer por arbitrariedades de trato em exceções que tornam-se regra ou pela utilização de mitos que pelo senso comum perpetuam ideias falsas sobre o poder vigente. Sobretudo a dispersão do conhecimento pela educação sempre deve seguir uma razão de não imparcialidade mascarando ambos os lados em suas condições, quer oprimidos ou opressores. A isenção nunca será preterida pelos opressores.

"Para criar um escravo satisfeito, é necessário cria-lo estúpido. É necessário obscurecer sua visão moral e intelectual, e, na medida do possível, aniquilar o poder da razão."
Frederick Bailey

Particularmente derivo disto que a lei em si não deve ser demasiadamente rigorosa se o rigor em imparcialidade estiver em sua aplicação. O rigor assim deve focar-se no poder executivo e jurídico, não no legislativo pois convém a exceção ser arbitrariedades e mácula de poderes autoritários e(ou) ilegítimos.
Ao poder opressor convém utilizar-se dos mitos (assim como a fantasia) como um modo de atrelar o ethos aos instintos, assim deve acompanhar a ignorância em suas muitas formas como modo de impedir um senso crítico assim como a imparcialidade não preterível aos opressores. Freire nota também a razão do diálogo que a medida que deve ser imprescritível numa revolução ela não é preterível entre opressores e oprimidos.

Quando a educação não é libertadora, apenas adestra-se num continuado sacrifício o qual nos fazem escravos dos erros. Animalizar, para que sejamos escravos do ambiente e de nossos próprios instintos. A irracionalização do homem é o mais eficaz método contra sua liberdade num estado de não consciência, do não pensar reflexivo.

Para que a opressão possa triunfar é preciso inferiorizar a essência humana - mesmo de modo ofensivo e calunioso ou por violência - afim de sobrepor de maneira a realçar uma falsa superioridade em detrimento do mesmo. Não se trata apenas de neutralizar, mas de negativizar tornando-o em objeto passivamente receptor a incapacitando em sua potência em todos sentidos, mantendo a eterna condição de depedência e divida.

"Desconfiar dos homens oprimidos, não é, propriamente, desconfiar deles enquanto homens, mas desconfiar do opressor 'hospedado' neles."
P.320

Pedagogia do Oprimido  - Paulo Freire - Editora Paz e Terra - 2013

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