Uma águia é criada como galinha desde filhote por um camponês. Não conhecendo seu potencial, e vivendo uma vida amputada e mutilada, fica resignada a uma vida pedestre de ciscar grãos de milhos ao lado dos demais galináceos por ter seu direito de voar arruinados, por desconhecer o potencial de suas asas ante uma criação torta.
A metáfora predita num discurso por James Aggrey, um político de Gana - país por muitos anos miserável pela colonização - aspira ao messianismo por ater-se a conceitos inspirativos de uma moral sobre perseguidos e injustiçados, não sendo uma ideologia meramente de agrado ao lado “tripudiador” como justificativa ao injustificável.

O trato dado pelos colonos ingleses aos ganeses era de que nada podiam, eram inferiores, sua cultura inadequada e que estava destinados a uma vida miserável e de servidão, sua liberdade e conquistas não eram escolhas pois antes mesmo que começasse a liberdade, a subjugação inglesa acabou com sua cultura gradualmente degradada pela imposição cultural e política própria. Isso expõe apenas uma faceta de justificativas ao injustificável, uma aberração que na realidade serve a muitos contextos e justamente o ponto de partida para o livro ‘A Águia e a Galinha’ do intelectual Leonardo Boff.
Boff ao repaginar a metáfora de Aggrey nos remete a vários paralelos do autoconhecimento associando-se a elementos dos conhecimentos filosóficos, científicos e teológicos. O recado é claro: não é alguém que pisa sobre nós que pode determinar o que somos, desfigurar nossa identidade e impor mesmo nosso ser para ainda querer ter razão, ficar preso a uma realidade não nos faz necessariamente parte dela, como o mito da caverna de Platão. Somos o que fazemos, não o que desejam fazer conosco.
A águia assim estava vendo apenas suas próprias sombras do que era, uma sombra de galinha, precisava ir pra fora da caverna e ver-se como realmente era assim como a realidade que não conhecia.
A partir disso Boff mergulha na história humana e em diversos outros exemplos da aplicação de que todos nós temos uma águia tanto como uma galinha dentro de nós, de modo que podemos associar ambos na vida cotidiana.
Águia, signo de liberdade e do alçar voos, expoente comum da teologia da libertação o qual Boff ajudou a fundar, apresenta traços de independência ao contrário dos colonizados simbolizados pela galinha. Todos dependemos de relações e assim o lado “galinha” sempre é não somente presente como necessário, mas também temos sonhos o qual toda águia representa: poder libertar-se das amarras comuns dos algozes simbolizados pelo colonialismo inglês e poder ter autonomia e liberdade realizando sonhos.
Assim apresenta-se um diálogo estabelecido pelo autor entre dualismo e dualidade, elementos contrários mas que se completam e contrários que se anulam. Num universo na eterna busca pelo cosmos através do caos deixa implícito que a perfeição e equilíbrio definitivo pode nunca ser atingido, mas sim aprimorado.
A identificação com o livro ao leitor é imediata. Ao viver numa sociedade dominada por abismos e adversidades a injustiça é fato, os pobres são galinhas e os ricos águias, mas justamente disso pode surgir um messianismo que assim como com Jesus e inúmeras outras personalidades é libertador.
Jesus fora crucificado como uma galinha, mas o signo da ressureição emergiu como uma águia e para tanto revoou aos céus após isto.
Todavia parece remeter a ideia de que assim como há coexistência entre alguns tipos
de opostos, de acordo com Niels Bohr, há aqueles que são irreconciliáveis como água e óleo. Em contraparte, ideologias como a do colonialismo, dos servos e senhores, ideologias que apresentam duas faces e assim apenas são justificativas ao injustificável, uma ideologia de abismos fomenta não a dualidade, mas dualismo. Afinal o pobre pode viver sem o rico, mas esse tipo de rico não vive sem o pobre, vide o colonizador que se apresenta imprescritível ao colonizado quando na realidade o colonizado que é imprescritível ao colonizador que não vive sua mão de obra barata, mas o contrário é muito mais fácil. Esses pobres vivem sem os ricos.
Torna-se inquestionável que Leonardo Boff é um notável pensador e no livro prova seu valor não somente demonstrando sua erudição como enriquecendo o texto com metáforas normalmente coerentes. Ainda que eventualmente pareça sair do cerne do cristianismo à mistificação ao abraçar elementos pseudocientíficos e bem ultrapassados da ‘nova era’ e que na prática pouco resolvem ou acalentam anseios - nunca tive conforto ou respostas neles - apenas criando teorias que são justificativas para si próprios apenas.
Aqui e acolá, Boff comete falhas e deslizes, como por exemplo ao afirmar que ao evolucionismo de Darwin é a lei do mais forte que reina, quando ao conhecedor percebe-se que é o mais apto de acordo com a afirmação do próprio Charles Darwin. Vide, a biologia não apresenta leis como em física.
Mas a consistência está na pregação do autoconhecimento e na crítica cultural de como povos subjugam muitos demais ao impor seus sistemas de crenças e "valores" o que torna-se contraditório. O texto assim desenvolve e envolve o leitor mergulhando em todas as possibilidades que abre a referida metáfora do título.
Hábil artesão em tecer as sentenças no texto e amarrando pontas, Boff demonstra sua bagagem cultural e experiência ao nos orientar por um caminho não só de autoconhecimento como de autoajuda, sendo assim - mesmo com falhas -, de longe, uma das obras do filão mais prestativas que conheço no mercado editorial/literário.
Pode não ter me libertado, mas ao menos enriqueceu meu conhecimento sobre alguns assuntos e somente ficou faltando delinear melhor a diferença das vertentes que exemplificou, pois as vezes parece que o próprio autor esquece que o dualismo não é dualidade e que ainda assim existe água e óleo como o próprio colonialismo global que vivemos, a exemplo dos Estados Unidos.
Certamente Leonardo Boff poderia ter feito melhor com seu potencial, mas ainda assim a obra traz alguns ótimos momentos ao repaginar os inúmeros tipos de dualidades presentes nas esferas física (material), humana e espiritual, deixando um recado claro contra o materialismo dominante pelo capitalismo: somos todos galinhas quando nos tornamos meros consumidores (de milho).
A Águia e a Galinha - Boff, Leonardo - 2014
muito interressante
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