De um jovem nordestino que resolveu cursar direito à descoberta em si para o seu verdadeiro ofício, a pedagogia. A história de Paulo Reglus Neves Freire é narrada pela autora Vera Barreto de seu trajetória praticamente iniciada pelo exílio com o golpe militar que era uma culminância de conspirações na década de 1960 que levou Freire a sua consagração internacional que o levou a ser um dos mais importante intelectuais de nosso país e criador da pedagogia libertadora.
Paulo Freire tem uma poderosa mensagem universal acerca das classes, em especifico dos que são socioeconomicamente oprimidos. Sendo um dos maiores incentivadores da alfabetização trouxe ao seu pais – e a tantos outros latino americanos – a possibilidade das classes mais pobres e oprimidas se alfabetizarem. Vera Barreto define do seguinte modo:
"Os poderosos já não viam os outros como seus iguais, mas como objetos necessários para a satisfação de seus interesses. Tornaram-se opressores da maioria impondo-lhe sacrifícios e restrições para aumentar seus próprios privilégios. Gradativamente, estas relações opressoras foram se institucionalizando de tal maneira que passaram a ser consideradas naturais. Apareceu uma “Ordem” que legitima esta situação de opressão e reage contra todos que ameaçarem os privilégios para restaurar a humanidade de todos.(...) Mais do que isto, os oprimidos passaram a introjetar esta ordem injusta, como se fosse natural, e a considerar os opressores como modelos bem sucedidos de seres humanos. Modelos que procurarão imitar sempre que tiverem poder para isto. Cada oprimido passou a trazer em si a semente do opressor, fortalecendo a estrutura social vigente, injusta e castradora."
(Barreto, p.56, 1998)
Barreto mostra que a luta de Freire pela educação é uma luta para colocar em melhor posição das classes mais oprimidas de modo que Freire estabelece a alfabetização como ponto central de sua luta inicial. Se conhecimento é poder, a educação como ato de tornar o educando ao conhecimento é libertador tornando o oprimido livre das amarras impostas pelas classes dominantes através da ignorância e, a exemplo do que põe Freire, o analfabetismo.
Assim do retorno triunfante de Freire ao Brasil onde lecionou na faculdade e assim como sua vida pessoal, ele criou movimentos como O Circulo da Cultura com o objetivo primordial de alfabetizar adultos que viviam a margem da sociedade, pois para Barreto "embora seja verdade que as pessoas não conhecem de modo igual e que isto as torna diferentes umas das outras, esta diferença não justifica nenhuma superioridade" (Barreto, p.61, 1998).
O programa de Freire buscava conhecer as palavras geradoras de dada comunidade a fim de traçar um plano de alfabetização que incluía a observação silábica e do movimento labial em sua pronuncia. Vera Barreto postula do seguinte modo os critérios postulados por Freire:
— riqueza fonética – as palavras deveriam conter todos os fonemas da língua portuguesa;
— dificuldades fonéticas – as palavras escolhidas deveriam responder às dificuldades fonéticas da língua, colocadas numa sequência gradativa;
— aspecto pragmático da palavra – as palavras deveriam possuir forte entrosamento com a realidade social, política e cultural.
"Não há leitura nem escrita sem uma compreensão do lido ou escrito. Esta compreensão depende da 'leitura de mundo' que o educando é capaz de fazer” (Barreto, p.126, 1998) de maneira que a leitura de mundo era a constante comum para a alfabetização consciente de modo que ensinar a aprender de modo crítico se tornava vital a compreensão plena do que se lia e escrevia, de modo que a “natureza é o mundo que os seres humanos não fazem e a Cultura é o mundo feito pelas mulheres e homens” (Barreto, p.108. – 1998).
Entre os demais métodos ensinados por Freire estava a utilização de fotografias legendadas assim como fichas onde ilustrações enriqueciam tais aspectos ensinados, de modo que a descodificação dos educados permitia observar que “a Cultura modifica-se no tempo, ou seja, é histórica” (Barreto, P.110, 1998), por exemplo.
A educação assim levava a uma compreensão das diferenças de cultura e outros aspectos como a natureza de maneira chegavam a discutir mesmo aspectos das artes num âmbito cultural e que, por exemplo, "a poesia responde a uma necessidade diferente daquela que levou à construção do poço ou do vaso” (Barreto, p.113, 1998).
Isso, assim como a mensagem de Freira era universal a busca pela alfabetização seguia a igual universalização mediante as dificuldades comuns enfrentadas por todos independente de sua cultura e sociedade o qual vivia, mas presente no contexto socioeconômico o qual levava este a condição, a maioria das vezes, de oprimido. Romper com o ciclo de relação entre o oprimido e o opressor somente era possível mediante uma intervenção pedagógica contextualizada de modo a exacerbar que é a ignorância o mais eficiente mecanismo de opressão.
Paulo Freire assim se tornou um expoente máximo e de conhecimento internacional como representante de nosso pais a lutar pela igualdade de classes através de uma das mais poderosas armas que o homem pode ter o conhecimento que vem da educação, conforme mesmo Nelson Mandela dizia. Seguindo uma trajetória notável acadêmica e culturalmente, Paulo Freire nos deixou no ano de 1997 quando ainda tinha muitos planos a serem realizados.
O livro de Vera Barreto assim nos leva a uma viagem não somente pelos métodos desse notável a humanizador homem do conhecimento como sua trajetória e vida exemplar a quaisquer pessoas que almejam ser pedagogos e curar os males da ignorância comum ao engano dos que vivem oprimidos.
Avillez, Gerson - Fac-Unilagos, Araruama - 2015
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